Lucca, 05 de julho de 2009 - Após uma longa busca, finalmente conseguimos nos encontrar com o mais inatingível da atualidade. Estamos falando de Carter Beauford, o maravilhoso motor por trás de uma das bandas mais originais e autênticas do cenário musical: a Dave Matthews Band. A ocasião veio junto com o muito aguardado show de Lucca, que trouxe a banda de volta à Itália após quase 11 anos, na turnê de divulgação de seu último disco, o incrível Big Whiskey And The GrooGrux King.
O encontro está marcado para 5 da tarde, na lateral do palco. Sou levado para dentro de uma impressionante sala antiga, onde, apesar do calor insuportável, temos a chance de conhecer o líder da banda, Dave Matthews, que está educadamente respondendo perguntas de alguns jornalistas (os quais, verdade seja dita, não se esforçam muito para estimular a conversa).
Enquanto assisto este 'espetáculo', um membro da equipe da DMB me chama de lado e me leva direto ao camarim: ar condicionado e decoração em estilo oriental, um silêncio maravilhoso e uma paz incrível. Ao afastar a última cortina, sob uma luz suave, finalmente vejo Carter Beauford, que já foi avisado sobre a entrevista. Ele está ocupado digitando uma mensagem em seu celular, mas mesmo assim me recebe com um sorriso e entusiamo incrivelmente contagioso, apesar de nunca ter me visto antes. Brincamos sobre sua mensagem de texto e começamos a conversar. Além da sua extrema disponibilidade e gentileza, o que me impressiona é seu incrível entusiasmo, típico de um adolescente repleto de paixão. Carter é um verdadeiro fã de bateria, de bateristas e de música em particular, assim como de sua própria banda! A princípio tínhamos 20 minutos, que rapidamente se tornaram 45 enquanto nos pegamos em uma constante troca de impressões. Me sinto como se estivesse conversando com um amigo, empolgado ouvindo suas histórias sobre música e bateristas. Carter é exatamente assim, não se segura, nem mesmo quando está falando de suas próprias idéias e opiniões, sempre extremamente educado e demostrando muito respeito pela pessoa com quem está conversando. Carter é definitivamente a pessoa mais amável e simpática que já conheci, ao invés de uma entrevista, essa é uma longa e intensa conversa na qual vamos fundo em cada assunto, e podíamos ter continuado por muito, muito tempo, se não tivéssemos sido interrompidos.
Enquanto estou saindo do camarim, Carter continua falando e fazendo contato visual, com aquele sorriso incrível que todos conhecemos. Uma lembrança maravilhosa que levarei sempre comigo, até que nos encontremos novamente, claro...
Carter, por que demorou tanto para que vocês voltassem à Itália? Sei que não é culpa sua!
Carter: (rindo) é algo que nós queríamos há tanto tempo! Deixe-me pensar, a última vez que estivemos aqui foi em...
... 1998...
Carter: Isso mesmo! Há muito tempo, tempo demais. (paramos para que Carter possa enviar sua mensagem de texto no celular)
Devo confessar que estou muito empolgado para o show de hoje, especialmente depois de escutar seu último disco, que acredito ser o melhor da carreira da DMB.
Carter: Eu também acho.
Nesse disco o som da sua bateria, e seu jeito de tocar, estão em destaque, mais do que nos discos anteriortes. Eu sei que Rob Cavallo, o produtor do disco, é totalmente apaixonado pelo seu jeito de tocar bateria...
Carter: Sabe, sempre tentamos focar nossa música na bateria. Quando escuto o que Dave, Stefan e Boyd estão tocando, e LeRoi quando estava conosco - e acredite, estou o tempo todo atentamente escutando eles, copio tudo que estão fazendo. Normalmente sempre cortamos os pedaços mais barulhentos e espontâneos das gravações finais, por questão de produção, e acho isso muito ruim porque as pessoas não terão a chance de escutar esses momentos, que são pura interação musical. Dessa vez foi diferente porque tentamos colocar o foco em cada instrumento, especialmente a bateria, em cada peça da bateria. É por isso que nesse disco você consegue escutar todos esses momentos dos quais falei antes. Estou realmente muito feliz com esse disco, porque todos estavam tão concentrados e todos puderam dar suas próprias contribuições em termos de criatividade. Estávamos todos na mesma sintonia, todos indo na mesma direção, e por isso tudo funcionou perfeitamente.
Entrando em mais detalhes, devo dizer que o jeito que você toca hi hat nesse disco é absolutamente fantástico. Como se entrasse e saísse do groove, mas continuando sempre lá. É uma sensação muito diferente e difícil de explicar...
Carter: Sim, eu sei o que você quer dizer. É algo que já ouvi muitos outros bateristas fazerem e literalmente me apaixonei por esse estilo. Acho que o sincopado e esse jeito de tocar 'quebrado' quebram a monotonia do groove. Sabe, um groove 4/4 funciona muito bem em algumas músicas, mas outras pedem o hi hat tocado desta outra forma para estabelecer um diálogo musical, não somente com o resto da banda, mas também com o público, quando estamos no palco. Pra mim é isso que importa. É assim que você pode deixar a música mais atrativa. Se você tem uma conversa usando sempre as mesmas palavras, estará dizendo sempre as mesmas coisas, e fica chato. É por isso que você precisa de criatividade para tornar a conversa mais interessante. As pessoas tem mais vontade de prestar atenção se sua conversa for interessante. É por isso que gosto daquele jeito de tocar. Steve Gadd sempre foi e continua sendo um dos meus bateristas preferidos, assim como Dennis Chambers e muitos outros bateristas que tocam nesse estilo. Eu segui o estilo deles, mas dando minha própria interpretação, usando minha própria linguagem. Por isso uso muito esse estilo de tocar.
É algo que não é óbvio, é imprevisível, eu gosto muito...
Carter: Sim, imprevisível, é exatamente isso!
Devo confessar que acho isso muito empolgante. Só para esclarecer, sou um baterista, não um jornalista, então falamos a mesma língua, estamos juntos nessa pequena aventura... (nesse momento Carter explode em gargalhadas, batendo com o punho na mesa como sinal de aprovação).
Continuemos falando do seu estilo. Parece que está evoluindo passo a passo com seu som. É algo que tem acontecido de forma natural...
Carter: Sim, isso mesmo. É algo que vem de muitos anos de experiência. Por muito tempo tentei imitar o som de outros bateristas, de todos os meus heróis, como Buddy Rich, Billy Cobham, Tony Williams e Lenny White. Esse era o som no qual eu queria chegar, mas nunca conseguia, porque soar como outra pessoa é a coisa mais difícil de mundo. É o som daquela pessoa, é parte dele e vem da sua personalidade, e eu não tinha muita consciência disso no começo. Com o passar dos anos percebi que estava aos poucos desenvolvendo minha própria identidade musical, meu próprio estilo, depois de ter passado pelos estilos de todos estes outros bateristas. Simplesmente aconteceu e me tornei quem sou hoje. É algo maravilhoso, mas eu sempre busco ir adiante e dar o próximo passo, tentando evoluir e encontrar minha própria nova direção. Sempre fico atento ao que está acontecendo ao meu redor e não quero que meu som de bateria soe estagnado. Quero ter minha assinatura, meu som, mas ao mesmo tempo preciso sempre seguir em frente. Obviamente, gosto de manter algumas coisas iguais, para que sejam parte de uma voz única e pessoal.
Esse é um ponto muito interessante. Percebo que cada disco tem um som novo, diferente, entretanto suas características principais se mantém, você continua o mesmo, seguindo no caminho certo, evoluindo passo a passo...
Carter: Sim, é verdade, eu penso exatamente assim!
Acho isso uma grande qualidade...
Carter: Sabe, acho isso ótimo. Ao longo dos anos ouvi grandes músicos, cada um com sua própria voz. Pense em Pat Metheny ou Miles Davis. Você consegue reconhecê-los imediatamente, mesmo que não estejam tocando seu próprio instrumento. Um exemplo clássico disso é Michael Becker; ele pode simplesmente largar seu sax tenor e tocar o EWI(Electronic Wind Instrument, traduzindo Instrumento Eletrônico de Sopro), que é um instrumento eletrônico completamente diferente, mas você consegue recenhecer sem dúvida alguma que é o Michael Becker tocando. Mesmo que você escute a música direto de um computador, sempre terá certeza que é ele. Eu sempre disse pra mim mesmo: “Não vejo a hora de chegar nesse ponto com meu estilo e meu som”, para que as pessoas possam sempre dizer “Isso é Carter!”, mesmo que soe diferente ou que eu faça algo completamente diferente do que costumo fazer. Eu sempre trabalho nisso, tentando chegar nesse ponto.
É como quando você escuta alguma demo com um track de bacteria programado por algum produtor ou artista e você consegue reconhecer quem foi o responsável…
Carter: Exatamente!
Sendo o fã de DMB que sou, gostaria de falar sobre algo que sempre notei muito nos shows de vocês, que é uma relação que eu definiria como especial entre você e Dave: a troca constante de gestos de aprovação entre vocês.
Carter: Sim, sim, sempre.
Já perguntei ao Dave sobre isso, mas quero ouvir a sua versão (Carter ri muito). É algo que está ligado à fusão de estilos de vocês dois? O que você acha?
Carter: Sim, você tem razão. Sabe, quando começamos a banda, há 30 anos, Dave e eu moramos juntos, dividíamos um apartamento, e tínhamos muitas coisas em comum, éramos realmente muito parecidos… Era algo extraordinário. Quando o conheci achei que era incrível o quanto éramos parecidos. Éramos como dois irmãos, muito próximos, e sempre foi assim também no palco. Sempre me chamou muito a atenção o seu modo de tocar violão e cantar, que sempre achei incrivelmente único. E pensei “ Nossa, isso tudo é perfeito pra mim!”, porque sempre gostei de tocar naquele estilo sincopado, mudando o andamento, pegando algo e tirando um pouco do lugar, pra mais pra frente colocá-lo de volta.
Sempre tentamos fazer isso, pegamos algo e mudamos um pouco para tornar nossa música mais interessante, e quando atingimos esse ponto trocamos olhares e batemos os punhos. É algo difícil de explicar. Mas devo confessar que isso acontece com todos os caras da banda, só que acontece com mais frequência com o Dave, porque passamos tanto tempo juntos, tanto pessoalmente quanto musilcamente, e nos conhecemos tão bem, tanto dentro quanto fora do palco.
Nós gostamos e detestamos as mesmas coisas, somos como gêmeos, e isso é quase assustador(risos). É assim que eu vejo, e é muito engraçado, especialmente quando precisamos encarar algum problema, musicalmente, no palco. É sempre interessante ver como cada um de nós vai reagir e lidar com isso, e se conseguimos transformar o problema em algo bonito, que funcione.
Ultimamente temos nos concentrado muito nesse aspecto. Às vezes algumas músicas novas até surgem de situações como essas. Não era tão fácil no começo, porque ainda estávamos nos conhecendo, musicalmente, mas depois de 20 anos tocando juntos, ficou muito mais fácil e se torna muito mais interessante e divertido. Então, quando batemos os punhos é porque algo maravilhoso acabou de acontecer entre nós, nos olhamos e pensamos “ ei, eu ouvi o que você fez, foi muito bom!”
Às vezes até fazemos isso enquanto ainda estamos tocando, simplesmente porque queremos expressar nossa aprovação mútua. Bater os punhos no final de uma música quer dizer “ Vamos fazer isso de novo!”. É muito divertido e amo cada segundo quando isso acontece.
Começamos a fazer isso há 20 anos e é como ver um bebê crescer, nós plantamos a semente, vimos ela brotar e estamos vendo ela crescer, e acho que ainda não está madura. Ainda nem chegamos perto. Temos ainda muito o que fazer e vai levar muito tempo, é uma sensação maravilhosa.
Acho que ainda temos um longo caminho, ainda há tanto para acontecer em termos de música, e acho que posso falar por todos da banda, todos pensamos assim. Queremos levar o tempo que for necessário e esperar que cheguemos no ponto em que toda essa grandeza esteja madura e possa explodir. Muitas coisas boas estão por vir, nós mal arranhamos a superfície.
Fico feliz de ouvir isso… Mudando de assunto, você é muito conhecido nos Estados Unidos, e sem dúvidas grande parte desse sucesso se deve ao grande número de shows que vocês fazem lá todos os anos, na Europa você é menos conhecido, onde vocês tocam pouco. Dito isso, será que o veremos mais por aqui?
Carter: Sim, com certeza. Nas 2 últimas turnês só tocamos em algumas cidades européias porque queríamos experimentar e ver como seria, e a resposta do publico foi incrível. Essa turnê é a melhor, porque é a maior que já fizemos: decidimos adicionar mais datas na Europa, o retorno tem sido inacreditável e completamente inesperado. Falamos “Ei! Há algo acontecendo aqui!” e insistiremos nisso o máximo possível, e provavelmente um dia será aqui como é hoje nos Estados Unidos. Temos bons motivos para acreditar que isso vai acontecer, precisamos nos concentrar na Europa e dar a atenção que ela merece, como fizemos há tantos anos nos Estados Unidos. Vai ser difícil, mas sempre é difícil quando você quer algo bom. Estamos prontos para esse desafio, conhecemos tantas pessoas aqui que são fãs verdadeiros.
Tenho certeza que vocês vencerão esse desafio.
Carter: Eu também! Tivemos um retorno extraordinário e o número de fãs tem crescido sem parar dia a dia, devido a um incrível fenômeno de boca a boca. Muita gente que foi nos outros shows comenta com os amigos, então há muita gente trabalhando para nós, nossos fãs! Você vai ver, será ótimo!
E também acho que o fato de você ser famoso nos Estados Unidos devido à sua presença constante nos palcos é algo muito positivo, especialmente nos dias de hoje, quando as pessoas se tornam famosas sem nenhuma preparação e sem necessariamente ter desenvolvido a base para durar… Vocês deviam ser um exemplo para outras bandas.
Carter: Exato! Eu concordo com você. Isso é o principal, e é por isso que queremos vir aqui e tocar mais do que temos tocado. Existem muitas bandas que aparecem no cenário musical como um raio no meio da noite, e duram muito pouco, acho que isso acontece porque não trabalharam direito, não plantaram as sementes. Você tem que tocar e dar tudo de si, tem que plantar as sementes e fazer sacrifícios, só então que todo o trabalho é recompensado e dá frutos. Os fãs sentirão sua motivação, farão você se sentir melhor e se tornarão fãs devotados.
Carter, voltemos ao disco novo, sei que vocês gravaram principalmente em duas etapas, no ano passado e no começo desse ano. Como foi isso exatamente? Foram 2 sessões diferentes, sob vários aspectos?
Carter: Na verdade, foram 3 sessões diferentes de gravações. De primeira me encontrei com Dave: ele me mostrou algumas das idéias que tinha e eu imediatamente me apaixonei por elas. Isso foi no nosso estúdio em Charlottesville, na Virginia, onde fizemos as primeiras jam sessions e tivemos o primeiro contato com as idéias do Dave, para ver o que sairia disso. LeRoi também estava lá e, juntos, começamos a tocar e testar todas as idéias que tínhamos. Então fomos pra Seattle e começamos a transformar as idéias em músicas, e foi ali que tudo realmente começou a acontecer. Percebemos que tínhamos muito material bom para trabalhar. Nós deixamos a criatividade fluir, compondo e fazendo jams. Trabalhando nas músicas até que elas chegassem ao ponto em que estavam prontas para serem gravadas. Estávamos todos realmente em sintonia, e foi quando fomos para New Orleans, onde tocamos todas as músicas todos juntos e finalmente gravamos. Nesse ponto Rob Cavallo já estava conosco e colocou mágica nas nossas músicas, então, de repente, tínhamos o disco nas nossas mãos. Tivemos pessoas muito boas trabalhando para nós e todos numa mesma direção; todos, até mesmo os cozinheiros na cozinha, nos ajudaram a construir este muro e foram testemunhas da evolução do nosso trabalho nos meses que estivemos ali. Todos assistiram a criação e o desenvolvimento dessas músicas, que no final formaram um grande disco que apresentamos ao mundo todo. Foi algo incrível, todos deram muito de si nesse disco, e isso pode-se sentir quando se ouve o CD. Os fãs nunca se deixarão enganar pela nossa música, demos tudo que tínhamos para fazer esse disco. Nele falamos de nós, nossos corações e tudo que passamos nos últimos 20 anos. Você consegue ouvir tudo isso na nossa música, você ouve Charlottesville, Seattle e sem dúvidas New Orleans. Você consegue ouvir nosso amigo LeRoi, que faleceu recentemente, ele também está nessas músicas. Consegue ouvir os altos e baixos e tudo pelo que passamos juntos, pode perceber tudo isso. Outra coisa que me impressionou foi a dedicação e o trabalho de Dave para fazer a capa. É simplesmente incrível. Quando vi o desenho pela primeira vez fiquei sem palavras, porque imaginei o tempo e o trabalho que deve ter dado para desenhar aquelas imagens fantásticas. Acredito que deve ter levado dias, semanas, talvez até mais que isso, para criar o que parece uma verdadeira história. Se você olhar com atenção enquanto escuta o disco, pode viajar naquela imagem; é um aspecto fantástico desse nosso trabalho. Mas quero insistir em um ponto: isso não é tudo… Há muita coisa ainda por vir. Você verá.
Ótimo!
Carter: Como estava dizendo antes, nós ainda mal tocamos a superfície, há muito ainda por acontecer. Infelizmente, tivemos que passar pela amargura da perda do nosso amigo LeRoi, mas às vezes é assim. Às vezes você acorda e vê a luz. Quando algo assim acontece você passa por muitos momentos incríveis que te permitem aprender tanto, mas tem que passar por isso para aprender, e acho que finalmente entendemos certas coisas. Você verá, ainda temos muito a dizer…
É muito interessante, do meu ponto de vista, ver você tocar com a mão esquerda o hi hat e o ride num setup de destro, talvez porque eu faço a mesma coisa…
Carter: Ah, isso é muito interessante…
Às vezes vejo você fazer algo mais interessante ainda, você cruza os braços.
Carter: Exato! É, eu faço isso de vez em quando…
Como, por exemplo, em “Crush”, o ponto é que tudo fica sempre muito interessante, principalmente o fraseado …
Carter: Sim, o fraseado é algo com o que eu me importo muito, talvez seja a coisa mais importante. Às vezes, quando cruzo os braços, eu vejo e ouço coisas extremamente diferentes do que no estilo open handed. Dependendo do que quero dizer naquele momento em particular, decido se toco open handed ou com os braços cruzados. Tenho uma estrutura básica, e, dependendo da música, uso um dos dois estilos. Além de “Crush”, também cruzo os braços em “Pig”…
…e também em “Stay”…
Carter: Exato! Você consegue ouvir claramente em quais músicas eu cruzo os braços. Acontece de vez em quando, quando quero fazer algo bem diferente. Depende de como me sinto e daquilo que quero expressar. Quando cruzo os braços é uma sensação completamente diferente. Eu poderia até fazer isso em todas as músicas, mas prefiro tocar no meu estilo.
Pode ser também que você naturalmente toque algumas músicas com os braços cruzados ao invés do braço aberto?
Carter: Sim, claro. Mas eu repito, tudo depende de como me sinto. Às vezes pode ser também porque algumas coisas são mais fáceis tocadas desse jeito. Se pegarmos “Pig”, por exemplo, devo te dizer que o sincopado daquele groove fica muito mais natural se eu cruzar os braços, apesar de eu também conseguir tocar open handed. Talvez isso aconteça porque sou muito preguiçoso(gargalhadas)! É muito divertido brincar um pouco com isso, é a parte mágica de ser músico. Buscar o maior desafio possível, poder ser criativo, isso é o mais importante. Tentar descobrir o quanto você pode ser criativo mas também ser interessante para quem escuta, e especialmente para você, para que você não fique entediado. O tédio é algo que me enlouquece, mas devo dizer que nessa banda não tenho tempo de ficar entediado, porque, falando musicalmente, acontecem tantas coisas maravilhosas que você não tem nem tempo de se distrair. Contanto que eu esteja com meus irmãos da banda, está tudo ótimo.
Acontece de você ver um baterista tocando de uma forma mais tradicional, cruzando os braços, e você fica fascinado pelas idéias e estilo e tenta trazê-las para o estilo open handed, simplesmente para criar algo novo? Comigo acontece muito.
Carter: Sim, sempre. É uma parte muito importante do que fazemos, porque você escuta e toca de uma maneira completamente diferente. Quando toco com os braços abertos, minha mão direita faz o papel de um solista, porque consigo alcançar qualquer tom ou prato, e consigo tocar o que quiser, enquanto minha mão esquerda pode continuar tocando o chimbal ou a condução, e a caixa ao mesmo tempo. Eu também uso minha mão direita para os acentos no splash, por exemplo, ou em outras peças do set, talvez não tocando algo incrível, mas só para deixar algum trecho em evidência. Essa é a razão pela qual, muitos anos atrás, mudei meu estilo e comecei a tocar no estilo open handed, porque eu me sentia bem, e me permitia fazer muito mais. Ainda consigo tocar com meus braços cruzados, dá mais trabalho mas sem dúvidas abre portas para novas possibilidades em questão de criatividade, porque te dá uma sensação diferente, e tudo parece diferente. Às vezes, quando toco com os braços cruzados, tenho a impressão de que não estou tocando, é como se fosse outro baterista tocando!
É como se você estivesse fora do seu próprio corpo…
Carter: Sim, é verdade, é exatamente o que eu estava pensando! É exatamente assim que você se sente. Faz você se sentir vivo e ser sincero com você mesmo, evitando que siga um caminho específico já traçado. Porque esse é o risco que você corre, que acabe tocando sempre a mesma coisa, o mesmo estilo em cada música. Então, de repente você cruza os braços e diz “Ah, ok!”. E você consegue sentir, pode sentir a diferença.
Carter, espero que vocês consigam lançar um DVD dessa turnê: estou muito curioso pra te ver tocando ao vivo, porque o disco novo é um dos meus favoritos, junto com o Before These Crowded Streets…
Carter: Tenho certeza que vamos lançar alguma coisa dessa turnê européia, porque nunca fizemos isso antes e também porque agora a banda está tocando como nunca; tudo se encaixa perfeitamente. Fizemos uns shows ótimos na Inglaterra, na França e em Montreux(Suíça) na outra noite. Sim, com certeza você verá que algo dessa turnê vai ser lançado.
E, por favor, não nos faça esperar tanto por um disco novo…
Carter: (Rindo) Como eu estava dizendo, na outra noite tocamos no Festival de Jazz de Montreux e foi um show muito bom: eu sei que foi gravado em HD, vídeo e áudio; vi um trecho da gravação e – te garanto – está absolutamente incrível, e o som está limpo, perfeito.
Queremos ver!
Carter: Todos querem que seja lançado! Eu conversei com eles, nós temos os direitos sobre o vídeo e o áudio, e isso é ótimo, porque podemos lançar quando e como quisermos. Tenho certeza que aquele show será lançado.
- SET UP -BATERIA & HARDWARE
Yamaha:
- bumbo 20" x 18"
- toms 8" x 8", 10" x 9", 12" x 10", 14" x 12"
- surdo 16" x 16"
- caixa Yamaha(Protótipo) 14" x 6,5"
Pedal duplo DW 9002 Series
Batedores DW Hardcore Beaters
M
áquina de chimbal DW 9000 Hi-Hat Stand
Trigger de bumbo DW Kick Drum Trigger
Caixa Purple Titanium Dunnett 10" x 6"
Timbale Titanium Dunnett 13" x 7"
Timbale LP
Percussão Remo Hand Percussion
PELE
Remo Clear Emperor sobre Ebony Ambassador
Powerstroke 4 Kick Drum
BAQUETAS
Pro-Mark Carter Beauford Signature Series Hickory 5AB
ELETRÔNICOS
Pads eletrônicos e triggers da Hart
PRATOS
Zildjian:
- 14" K Dark Crash Medium Thin
- 20" A Custom Flat Ride
- 20" A Projection Ride
- 13" Hi-Hats (K Dark Custom Top & Z Dyno Beat Bottom)
- 6" Zil-Bell
- 18" K Dark Medium Thin Crash
- 17" K Prototype
- 10" A Custom Splash
- 19" K China 20" sobre um Oriental Classic China
- 8" A Splash sobre um 10" K Splash
- 9" Oriental Splash
- 20" Crash of Doom
- 14" K China com 4 rebites
- 18" K Prototype
- 14" ZXT
A história de Carter começou uma noite quando seu pai, que não conseguiu arrumar uma babá, decidiu levá-lo a um show de Buddy Rich. Carter lembra que aí foi quando ele decidiu que tocar bateria era tudo que queria fazer pelo resto da sua vida. O pai de Carter era trompetista, e foi a grande inspiração para que seu filho escolhesse a carreira de músico.
Nascido em Charlottesville, na Virginia, Beauford tocou profissionalmente pela primeira vez aos 9 anos de idade, em uma banda de fusion liderada por Big Nick Nicholas.
Foi muito importante sua participação numa banda de fusion chamada Secrets (nessa mesma época ele também foi baterista de um programa do pianista Ramsey Lewis, para a rede de TV Bet On Jazz), porque um dos maiores frequentadores dos shows deles era Dave Matthews, que pouco depois chamaria Beauford e LeRoi Moore(saxofonista da banda) para trabalhar no desenvolvimento de um material que ele tinha escrito. Carter lembra que achou a música de Matthews muito interessante e ficou fascinado pela maneira como ele compunha.
Antes que percebesse eles já estavam no estúdio(junto com o muito jovem Stefan Lessard) gravando algumas músicas que queriam mostrar aos amigos, só para ver as reações e opiniões das pessoas envolvidas. Obviamente, foi sucesso imediato, e a partir daí a história fala da jornada e das conquistas de uma das bandas mais originais do planeta: a Dave Matthews Band. Quando os shows da DMB se intensificaram, Beauford deixou de ser baterista do Bet On Jazz. Nos anos seguintes, Carter Beauford participou de diversos discos de artistas como Santana, John Popper, Victor Wooten e Robin Andre.
Durante a coletiva de imprensa com Dave Matthews tive a oportunidade de perguntar sobre a incrível compreensão que existe entre ele e Carter Beauford. Os olhos de Dave Matthews subitamente brilharam e ele me disse:
“Eu preciso dizer isso sobre o disco novo, mas que também vale para outras coisas que compusemos antes, algumas das músicas foram criadas pensando em como Carter iria tocá-las, e surgiram de improvisações que fizemos juntos em outros momentos. Quando componho minhas músicas eu sempre me empolgo muito só de imaginar como Carter vai interpretar a música. Um ótimo exemplo do que estou falando é uma das músicas novas do último disco, que se chama “Seven”. É uma música muito complicada, por causa das mudanças de andamento, mas ele fez tudo ficar tão fluído, fez a música ficar tão simples e leve que te dá vontade de dançar, ao invés de complicá-la mais ainda. Ele é um músico muito inteligente e um artesão do seu instrumento. Existem muitos músicos que conseguem mostrar tudo que podem fazer, mas não há muitos que conseguem fazer com que você entenda o que estão fazendo”.
Conception by Corsina Andriano (Con-Fusion) and Rodrigo Simas (DMBrasil). Layout and pictures by Rodrigo Simas. Original interview in italian by Roberto Baruffaldi. Translation to english by Benedetta Copeta, Carla Melis and Riccardo Ranzato (Con-Fusion). Translation to portuguese by Nathalie Colas (DMBrasil). Translation to spanish by Miguel Angel (DMBLA). Translation to french by Paul Hebert (Proudest Monkeys). Programming by Leonardo Soares (DMBrasil). Special thanks to Corsina Andriano and all the Con-Fusion staff & to Miguel Angel from DMBLA.